domingo, 29 de março de 2026

Não mais existem as outras...

 



Como árvore que resistiu ao incêndio

 

Que sobreviveu a todas as outras com as quais cresceu,

 

Ainda resisto na planície, solitária e ensimesmada.

 

Já não há outras para comigo cantar o farfalhar das folhas,

 

Nem raízes para trocar ideias, sonhos ou sentimentos,

 

Simplesmente, as outras, não existem mais.

 

Solitária, padeço de mim mesma,

 

Sem outras pra reconhecer minha existência.

 

Sou um nada, abandonado a sorte do tempo,

 

Pedindo intimamente um fim rápido, fácil e indolor.

 

Não existe outro que espelhe minhas alegrias,

 

Ou reparta minhas dores.

 

Somente existo,

 

Sem parecer ter alguma finalidade.

 

Todos se foram...

 

Restou o vazio de mim mesma.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

De que te valeu tanta beleza?

 



De que te valeu tanta beleza?

Onde não dói nesse corpo belo e desejado?

Quantos olhos penetraram pelas suas roupas?

Desnudando-a, sem em ti tocarem?

Em quantos leitos estivesses sem desejares?

Fingindo um prazer inexistente,

Escondendo o nojo do teu par.

Em tua mente quantas e quantas vezes

Amaldiçoas-te tua enorme beleza,

Preferirias ser a mais feia das feias.

Destino cruel, imposição dos deuses,

Abençoada com o corpo de Vênus,

Amaldiçoada com a solidão das nereidas.

Esperastes ansiosa a chegada da idade,

Que a pele envelhecesse e se enrugasse.

Para que eles não mais a desejassem.

Triste prazer o amor da carne,

Que te roubou a mocidade.

 

Mallika Fittipaldi.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Os deuses da Terra.


Os deuses

Que povoaram a Terra

Seus arco-íris

Suas montanhas

Suas águas salgadas

Suas águas doces

Suas fontes, nascentes, regatos

Suas grotas, grutas, cavernas

Seus ventos, brisas, tufões

Que embalavam os pequenos com seus feitos

Animavam os guerreiros com suas histórias de lutas

Alimentava a bravura, a honestidade, a fidelidade

Fortes, belos, mortais ou não

Onde estão?

Esquecidos nos livros de mitologia?

Nas estantes das bibliotecas?

Nas revistas em quadrinhos?

Ou como espíritos civilizadores

Dirigem novos mundos para dia melhores?


Não apenas um retrato.

 



Não apenas um retrato.

Sinto-me segura nessa parede fria a que me penduraram,

Através dos tempos eu os observo, com olhos de papel e tintas.

Alguns me temem, outros me abençoam.

Posso ser vista como uma guardiã protetora,

Ou a que grita que a morte está a chegar.

De qualquer forma evitam me irritar,

Lançar-me fora, esconder-me onde ninguém possa me fitar.

Em dias de angústia aos meus, em sonho, ouso visitar,

Com a língua dos mortos dou-lhes avisos, informo dos males que virão.

São minhas sementes, filhos dos filhos, dos filhos e dos filhos que nascerão.

Enquanto o tempo permitir, a pintura existir deles serei guardiã.

Não me leves para ti, não pertenço a tua estirpe, se o fizeres...

Não te trarei bênçãos, só maldição.