terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

De que te valeu tanta beleza?

 



De que te valeu tanta beleza?

Onde não dói nesse corpo belo e desejado?

Quantos olhos penetraram pelas suas roupas?

Desnudando-a, sem em ti tocarem?

Em quantos leitos estivesses sem desejares?

Fingindo um prazer inexistente,

Escondendo o nojo do teu par.

Em tua mente quantas e quantas vezes

Amaldiçoas-te tua enorme beleza,

Preferirias ser a mais feia das feias.

Destino cruel, imposição dos deuses,

Abençoada com o corpo de Vênus,

Amaldiçoada com a solidão das nereidas.

Esperastes ansiosa a chegada da idade,

Que a pele envelhecesse e se enrugasse.

Para que eles não mais a desejassem.

Triste prazer o amor da carne,

Que te roubou a mocidade.

 

Mallika Fittipaldi.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Não apenas um retrato.

 



Não apenas um retrato.

Sinto-me segura nessa parede fria a que me penduraram,

Através dos tempos eu os observo, com olhos de papel e tintas.

Alguns me temem, outros me abençoam.

Posso ser vista como uma guardiã protetora,

Ou a que grita que a morte está a chegar.

De qualquer forma evitam me irritar,

Lançar-me fora, esconder-me onde ninguém possa me fitar.

Em dias de angústia aos meus, em sonho, ouso visitar,

Com a língua dos mortos dou-lhes avisos, informo dos males que virão.

São minhas sementes, filhos dos filhos, dos filhos e dos filhos que nascerão.

Enquanto o tempo permitir, a pintura existir deles serei guardiã.

Não me leves para ti, não pertenço a tua estirpe, se o fizeres...

Não te trarei bênçãos, só maldição.