domingo, 8 de fevereiro de 2026

Não apenas um retrato.

 



Não apenas um retrato.

Sinto-me segura nessa parede fria a que me penduraram,

Através dos tempos eu os observo, com olhos de papel e tintas.

Alguns me temem, outros me abençoam.

Posso ser vista como uma guardiã protetora,

Ou a que grita que a morte está a chegar.

De qualquer forma evitam me irritar,

Lançar-me fora, esconder-me onde ninguém possa me fitar.

Em dias de angústia aos meus, em sonho, ouso visitar,

Com a língua dos mortos dou-lhes avisos, informo dos males que virão.

São minhas sementes, filhos dos filhos, dos filhos e dos filhos que nascerão.

Enquanto o tempo permitir, a pintura existir deles serei guardiã.

Não me leves para ti, não pertenço a tua estirpe, se o fizeres...

Não te trarei bênçãos, só maldição.

Os expurgados.

 


Os expurgados.

Quem os expulsou de suas casas? 

Que pecados custaram seus lares e famílias?

Eu os vejo e vocês são tantos. 

Ainda vagueiam sem sentindo,

Solitários, abandonados, nus em suas chagas.

Tentaram mudar? Talvez não, talvez sim. 

Alguns conseguiram outros desistiram.

Mas, todos foram abandonados.

Os vejo com suas roupas antigas, trejeitos ultrapassados, linguagens rebuscadas.

São meus tios e tias, avôs e avós, irmãos e irmãs,

Pais e mães de outrora.

Se não os incorporo a minha família, 

Nunca serei plena.

Corro em busca de suas lembranças,

Posso fazer um álbum de família, 

Colocar fotos que realmente não são as suas.

Nomes fictícios que poderiam ser os seus,  não saberei se os são.

Mas, que vai representá-los no meu coração.

Abraço a cada um e peço perdão,

Honro suas dores, torno-os mais felizes.

Os acolho em meu lar, em meu coração, na nossa família,

Não são mais segregados.

Agora são meus honrados antepassados.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Minha árvore genealógica.

 



Minha árvore genealógica não é um retrato na parede,

É um eco vivo dentro de mim.

Cada galho quebrado, cada raiz retorcida, sussurra em meus ossos.

Carrego a coluna curvada da minha mãe,

Pela mesma ter carregado o mundo nas costas.

O coração ávido da minha avó,

Por não ter sido a preferida do pai.

A mente febril do meu tio-avô,

Enlouquecido pela busca de conhecimento, oculto e sombrio.

Sou um arquivo ambulante de dores alheias,

Uma biblioteca de almas que buscam reparo nas minhas páginas.

Como sarar cicatrizes que não são minhas, mas que sangram em meu nome?

Cuido-os, revivendo-os, transformando seus lamentos em minha própria canção.

Gerando uma nova árvore, menos torcida, para as gerações que ainda virão.

A aranha mãe.

 


A aranha mãe.


Tece a aranha sua teia, calma, tranquila e alheia.

Silenciosa, como a mãe natureza,

Fia com aptidão e beleza.

Desenhos geométricos seus sonhos perneiam.

Fará o melhor que puder, com certeza.

Do seu ventre sairá o futuro,

Descendentes desejados ou não.

Eles herdarão sua beleza,

Sua ira,

Sua bondade,

Sua solidão.

Tece a mãe aranha sem saber,

Que suas dores e amores,

Eles de legado irão receber.

Culpa sem culpa.

 


Culpa sem culpa.

Quanta culpa sem razões,

O peito pesa toneladas,

A dor de quem sabe que não fez nada,

Continuo arder em chamas como acusada.

O que fiz eu que não saiba?

Donde vem essa sombra doentia?

Que machuca minha mente,

Com acusações vazias.

De que baú do passado elas saíram,

Não me lembro de mau algum ter cometido.

Parecem gritos do passado, que ecoam estremecidos,

Imploro a todos, que gritam, por favor, parem com isso!

É um tormento imerecido?

Ou só não compreendo esses gritos?

 


Frutos de outros homens

 


Não há frutos sem árvores,

Homens sem pais.

Arvores sem raízes,

Homens sem ancestralidade.

Raízes sem passado,

Vidas sem heranças.

Sementes sem futuro,

Porvindouro sem frutos.

Somos partes dos que nos geraram,

Deles não nos apartamos por completo.

Mallika Fittipaldi


terça-feira, 15 de abril de 2025

 


Os ancestrais e eu.

 

No túnel do tempo, do passado ao futuro, repouso no presente.

Comigo no universo, sei que outros estão.

Próximos ou longe, fazem parte da minha história.

De uns recebi bênçãos

De outros... maldições.

Estão comigo! Falam em sussurros nos meus ouvidos.

Ou gritam suas dores em meu corpo, como doenças.

Mulheres me ensinam o Caminho da Mãe.

Homens, o Caminho do Guerreiro.

Debatem-se ainda em situações que não resolveram.

No meu livro da vida, há muito mais vidas que somente a minha.

Como se não me bastasse meu próprio peso,

Carrego comigo, queira ou não, seus erros e acertos.

 Sou o vaso de carne para suas redenções.

Antecedera-me, deixaram-me suas heranças.

São meus ancestrais, os que vieram antes.

Formaram, em grande parte, o que hoje sou.

Honro suas dores e alegrias.

Valorizo seus feitos e glórias.

Acolho suas perdas e fracassos.

Essa herança fez-me crescer.

Eu sou aquela que, no momento, busca a cura.

Para todos que, no antes de mim, criaram o que eu sou.

E quando me curo, torno são meus ancestrais.


Mallika Fittipaldi.

15/04/2025

In: Cura Ancestral.