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sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Flor da agonia


A escrita é a pintura da voz" (Voltaire)
A minha dor, tão presente, é criação somente minha.
Nela invisto, certamente, energia todos os dias,
Cultivando-a com presteza, como flor de rara beleza,
Amando-a, alimentando-a, curando-a das mazelas.

Nada consinto que abale sua exuberância,
Das minhas crias, a trato como a de maior importância,
Não permito ocorrência que diminua seu tamanho,
Será sempre minha dor, amanhã, hoje ou no antanho.

Para que floresça forte, firme, eternamente,
Faço-me das coisas sublimes e alegres ausente,
Como se não tivessem existência em minha vida.

Olvido, por estupidez, todas as bênçãos que possuo,
Fico ausente e cega à exuberância da natureza,
Sempre escolhendo, por própria vontade, à dor ficar presa.

Sou eu, somente eu, que alimento essa flor infernal e dolorosa,
Que a rego como se fosse a mais exuberante das rosas,
Desatenta de que para mim, para existir o jubilo e alegria,
Bastaria deixar morrer essa flor em sua própria agonia.


quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Opção por fenecer

Beautiful Surreal Figurative Artwork by Aykut Aydogdu | Netfloor USA
Aykut Aydogdu - Arte


Só pode ser demência e loucura,
Essa vontade forte e obtusa de viver.
Como explicar esse sôfrego prazer,
A paixão pela vida que gera o sofrer.

Amor e ódio, na existência opostos e tão desiguais,
No fim, em nossas almas, doem do mesmo jeito, tanto faz.
Viver, parece ser formidável, mesmo sendo tudo dramático.
Pois, todas as coisas que amamos, terá um último ato.

Ébrios e tolos insistimos na vida sem compreender,
O que nos leva a persistir continuamente, a insistir em viver.
O que nos sustem nesse palco, o que nos prende, o que viemos fazer?
Ninguém realmente, com certeza, pode responder.

A vida é vinho, ópio, droga doce e inebriante.
Talvez um dia, se sóbrios por alguns instantes,
As agruras das vidas claramente possamos ver.
Então, preferiremos, nesse segundo fenecer.




segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Mulher cão



Como um cão leal ao seu dono,
Devotada é ao seu amor e amo.
Jamais poderia iludir ou enganar,
Nunca a fidelidade pôde abandonar.

Segue-o por todo lugar,
Com o corpo, com o olhar.
Estar sempre ali disposta a se dar.
E dá tudo de si sem pestanejar.

 Não lembra da própria vida,
O sonho mais caro enterrou,
Vive de si esquecida... por amor?

Seus olhos espelham o que se tornou,
Um cão doméstico, pelo dono esquecido,
Que por fidelidade se anulou.

Mallika Fittipaldi.