quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A tentação de Andrade.

Foi desde cedo adotado por um diabrete.

Um desses pequenos diabinhos.

De sorriso maroto, dentes branquinhos.

Sobre a cabeça dois pequenos chifrinhos.

Um pequeno rabinho que escondia direitinho.

Ocre como a terra.

Acima de tudo brincalhão.

Mas, era um diabrete.

Agia como um diabrete.

Divertia-se como um diabrete.

E a criatura que ele adotara possivelmente lhe era irmão.

Irmão de risos que obtinham torturando a todos que viam.

Na vila em que morava todos o conhecia.

O padre quando perto dele passava se benzia.

E ele ria e ria.

Um diabrete. Só podia ser um diabrete.

Os altos muros que pulava.

As subidas nos galhos mais altos e finos para roubar frutos.

As idas à tardinha ao cemitério.

Onde sob as lajes frias ficava a olhar o céu.

Na escola não havia que o agüentasse.

E a tia enlouquecia.

Os meninos as brincadeiras lhes temiam.

E cresceu assim.

A noite entrava em casa e sumia.

Na juventude rareou do mapa.

Era feito perna de cobra que ninguém via.

Foi para capital.

E o povo dizia que agora era lá que iria infernizar.

Voltou anos mais tarde.

Voltou como Dr. Andrade.

Já não era um diabinho.

No seu consultório todos eram recebidos.

Tratados com carinho, receitados e atendidos.

Sumira o diabrete.

Altruísta se tornara.

E até o padre o visitava.

À noite quando sumia.

No seu gabinete de estudo pegava uma garrafa.

E dentro dela preso o diabrete.

Que esperneava.

Aprendera a prender o que de si não gostava.

E agora fortalecido o diabinho soltaria.

Soltou.

O diabrete praguejou, tentou, tentou, tentá-lo.

Não conseguiu.

E envolvido numa nuvem de enxofre.

Para o inferno partiu.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Anjinho.


Vejo um anjo, um anjinho.


Pendurado na estrela.


Como quem dela fez ninho.




Vejo um anjo, um anjinho.


No rabo de um cometa.


Qual se fosse um cavalinho.




Vejo um anjo, um anjinho.


Deitado na meia lua.


Tirando um cochilinho.




Vejo um anjo, um anjinho.


Patinado em saturno.


Nos seus anéis de gelo fininho.



Vejo um anjo, um anjinho.


Um raio de sol de purpurina.


No universo de paz e luz.



Com um cordeiro na mão.


feito menino Jesus.

domingo, 22 de agosto de 2010

Não vistes?



Olho para teus olhos dementes.

Que figuras te apavoram?

Que monstro de perturbam a mente?

Onde perdeste tua alma.

Em que lugar desistisse de ti mesmo.

E hoje és oco como tronco velho.

Por que buscasses a alegria no sonho.

No néctar falso.

No poder nefasto.

Não viste que teu corpo fenecia?

Que tua mente fugia apavorada.

Ou sonhava com o que não existia.

Hoje, trapo de vida.

Molambo de homem.

Cheiras mal jogado em uma esquina.

Os que te vêm se assustam ou se apiedam.

Mas, não te socorrem.

E continuas entre sonhos e pesadelos.

O corpo treme com convulsões.

O pulso acelera.

O suor escorre pelo teu corpo.

Já não tens mais força para procurar tua assassina.

Morrerás aí onde estás.

No meio de teus próprios dejetos.

Não há mais quem te forneça a droga.

Acabou...

Vejo quem vem te buscar.

São sombras.

Como foste na tua vida.

Elas te perseguirão.

Até sugar tua última energia.

Vejo-te entrar no vale do desespero.

Agora só posso orar e esperar.

Até que te arrependas e abras teu coração.

Para receber a divina consolação

sábado, 21 de agosto de 2010

O que levarás?

Guardastes tanto e agora?

A quem deixarás toda fortuna?

Quem receberá tua mansão?

Quem o carro importado?

Quem usará tuas roupas de encomenda?

Quem será privilegiado com teu sobrenome?

Quem dormirá em teus lençóis de seda?

Quem beberá teu champanhe?

Quem lembrará de ti com doçura?

Quem fará uma prece pela tua alma?

Quem bem falará da tua vida?

Quem terá de ti boas lembranças?

Quem sentirá tua ausência?

Quem chorará uma lágrima sentida?

Que levarás para o outro lado?

Um corpo de carne que apodrece?

Uma roupa que se dilui com o tempo?

Os sapatos de cromo que mofarão?

Um esquife de primeira?

O cordão de ouro?

O anel de doutora?

Nada que não seja teu.

Nada que não construísses interiormente.

Somente o amor que sentes.

O bem que fizestes.

Poderás levar como bagagem.

Que em nada te pesará na viagem.

Mas, ao contrário te elevará a divinas paisagens.