Indo.
Quem sabe um dia um anjo
Virá ate a minha janela
Numa luz divinal
Com sorriso, claro, angelical
E me dirá: vem!
E eu rugas, ossos, pele
Lenta como o correr das horas
Sorrirei e irei
Calçarei minhas pantufas
Colocarei sobre o camisolão meu cachecol
Colocarei as dentaduras
Farei um rabo de cavalo branco no alto da cabeça
Sorrirei e irei
E a cada passo em direção ao anjo
Surpresa
Remoçarei.
Olharei pela última vez o quarto do asilo
As companheiras de solidão
Sorrirei para todas me despedindo
E no meu catre um velho corpo carcomido
Parecerá sorrindo comigo.
Infância.
Da minha infância
Lembranças
Da chuva grossa no barro
Das formigas se afogando nas poças
Dos barquinhos de papel a singrarem o mar de lama
De chutar as poças d’água
Da roupa encharcada
Cabelos molhados
Colados ao corpo
Da felicidade de participar do espetáculo natural
Ser um com tudo aquilo
Sem pensar no momento seguinte
Viver o momento
Uma felicidade que não se espera
Está ali no agora
Sou livre
Para pensar baixinho
Para sorrir sem mostrar os dentes
Para dizer tudo em pensamento
Para ir onde quiser sem sair do lugar
Para criticar entre quatro paredes
Sem ouvintes
Para realizar todos os meus desejos
Sem testemunhas
Sou livre
Na minha mente
Sombria, maléfica, demente
Arredia, malvada, doente
Lá sou livre
Não há platéia
Não há assistentes.
Não há quem julgue
Se sou sã ou doente.
Quem me dera...
Só mais um minuto
Para parar a queda
Rever todas as coisas
Crer mais em mim
Confiar mais em Ti.
Só mais um minuto
Teria desistido
Repensado ato insano
Represado a dor
A humilhação de ser que sou
A pobreza que a minha vida coroou
Esta vil ação
Um minuto mudaria tudo
Teria Ti ouvido
Teria Ti sentido
Mas, a pressa de me ver livre
Da dor que me apavorava
Lançou-me, em minha covardia
A escura cova.
Que como Cronos os filhos devora.
Confio, confio, confio.
A Ti minha vida
O meu passado, o meu presente, o meu futuro
Meus melhores momentos
Minha felicidade
O que de tudo precisar
O que aprenderei
O que já nasceu comigo e esqueci
Meus sonhos e desejos
Meu choro de criança
Meu pranto de homem
Meu coração
Todas as minhas ilusões
Minhas verdades
Minha mocidade
Confio em ti como guia
Por isso, não me abandones em plena estrada.
Mesmo não aprendendo com meus erros
Mesmo esquecendo Teus conselhos
Apara-me Pai.
Em Ti confio.
Deus eu daria.
Daria essa vida e outras
A luz dos meus olhos
Os passos dos meus pés
O correr das minhas pernas
Os sons da minha garganta
Meus sonhos
Minhas criações
Meus pensamentos
Tudo que me destes como meu
Para voltar a ti
Estarei sempre.
Estarei sempre aqui
Esperando o dia certo
O momento exato
O vento correto
Quando a bussola aponte o norte
E o farol acenda a luz
A estrela Usa Maior estenda seus raios
O corpo se prontifique e se aprume
Os cabelos saiam do desalinho
Os ossos endireitem-se
Os lábios preencham-se num sorriso
O coração diga sim
Então
Irei à busca de ti
Nem que seja para ver-te ao longe
Sem tocá-lo
Sem dizer nada
Só pelo medo
De ser rechaçada.
Agradeço realmente.
Por ter sido desprotegida
Aprendi a ser forte.
Por ter sido magoada
Aprendi a não me melindrar facilmente.
Por ter sido humilhada
Aprendi a ser humilde.
Por ter sido esquecida
Aprendi que o tempo tudo apaga.
Por ter sido caluniada
Aprendi que nem todos são verdadeiros
Por ter sido desprezada
Aprendi que não sou insubstituível.
Por ter sido mal tratada
Aprendi que nem todos têm bons modos.
Por ter sido roubada
Aprendi que a honestidade não é unânime.
Por ter sido pouco amada
Aprendi a dar mais amor para não ser igual há quem pouco ama.
Preferível amar
Mesmo em silêncio
Só com o olhar
No meu canto
Sem nada em troca esperar
Preferível amar
Cada ser como ele é
Sem nada quere ou poder mudar.
Simplesmente, aceitar.
Todos em suas formas impar sem par.
Preferível amar
Incondicionalmente
Sem por que
Mas, apesar.
Estendendo mãos firmes
Para amparar
Auxiliar no necessário
Não fazer mais do que precisar
E deixar partir
O nosso amor
Quando à hora da despedida chegar.
Peço.
Pedi tanto
Tantas coisas a Deus
Que nem lembro quantas foram.
Nunca anotei nada
Só pedia
Achava que possivelmente não seria atendido
E pedia, pedia...
Engano meu tudo vinha
Como vinha que plantava
Nascia o fato onde menos esperava
Numa data não marcada
E ficava então desesperado
O que fazer com um pedido atendido
Que não mais me fascinava?
Aprendi a pensar menos no que preciso
E caminhar buscando o que posso
Fazendo minha parte de homem menino
E esperando que só me venha o que realmente necessito.