sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Trincheiras.



Leio tua última carta.

Suja chegou-me ontem.

Lágrimas correram dos meus olhos.

E beijei aquele papel amarelado.

Tremi ao abrir o envelope.

Sofri antecipadamente pelo conteúdo.

Parece-me ouvir tua voz.

Junto a minha quando cantávamos as modinhas

Na época da tua infância.

Vejo sua letra, modificou.

Já não tem mais as linhas indecisas.

Endureceram, escureceram, aprofundaram com tua aflição.

Fala-me primeiro da saudade, da dor e dificuldades.

Das trincheiras cheias de lama e ratos.

Dos amigos que tombaram junto a ti.

Do sangue que jorrava sem cessar dos que estavam mortos.

Dos gritos de socorro daqueles que não podiam ser auxiliados.

De ter que deixar para trás os que já amputados não caminhavam e choravam o abandono.

Lamentas pelos que na calada da noite calaram-se para sempre.

E separaram-se das mães, das esposas, dos filhos, dos amigos eternamente.

E que nesse momento, para teu espanto, nem teu coração nem teus olhos sofreram pesar.

E de repente mudas para lembranças antigas.

Para lugares distantes.

Para tua infância.

Para teus folguedos.

Teus amigos perdidos nos caminhos.

Alguns que partiram contigo.

Outros que não voltarão.

Fala-me dos teus sonhos de retorno.

Da tua última namorada.

Do teu último amor.

Dizes que voltarás...

Mas sei que não.

Há uma semana atrás.

Recebi outra missiva.

Que me avisava friamente.

Juntamente com a medalha de honra.

Tua morte nos combate da guerra inconseqüente.

Nas mortes sem sentido.

No fim da vida de nossos filhos.

Pelos interesses medonhos dos poderosos.

2 comentários:

Runa disse...

Oi, amiga.

É sempre um prazer ler aquilo que escreves.

Bom fim-de-semana

Runa

Eduarda disse...

Mallika,

Uma carta, quase que um testemunho de alguém que a sentiu.

Emocionante momento.

bj