domingo, 28 de novembro de 2010

Processo de ir.

Frente a tanta dor.

A tanta miséria.

A fúria da não aceitação.

Aos tratos com a divindade.

Aos arrependimentos.

A luta cansativa contra a moléstia.

As lágrimas noturnas enquanto todos dormem.

A dilacerante certeza da partida.

O medo do desconhecido.

A solidão pesada e silenciosa.

O fingimento de quem acredita na cura.

O abraço que sabe ser o último aqui.

O beijo de despedida.

O riso falso de quem crê na vitória.

Os tratamentos cansativos e dolorosos.

As máquinas enfiadas no corpo.

Mãos estranhas a tocarem na intimidade.

A opressão do coração desesperançado.

A saudade de deixar quem ama.

O apego ao que criou.

O murchar das rosas que tratava com tanto cuidado.

Depois de tanta luta.

A resignação.

De que a roda da vida é também a roda da morte.

E que uma roda, roda a outra roda.

E finalmente a paz no olhar.

Apesar de tudo.

E quando a Lua saí e se espelha na poça d’água.

Com seus mistérios de luz sem luz.

Um anjo entra em teu quarto.

Sorrir.

Toma-te pela cintura.

E leva tua alma.

E nos deixa sem ti.

Um comentário:

Eduarda disse...

Mllika,

Fiquei suspensa no mento.

Soberbo!

bj